Monday, December 11, 2006

mossoró, um pouco de sua história (texto q fiz para o jornal de fato - 01/2006)
















Construtores da cultura















O nível cultural de Mossoró hoje não nasceu de um dia para a noite. Foi construído por muitos artistas mossoroenses ao longo de décadas. Em cinco edições, você vai conhecer um pouco destas pessoas e entender porque Mossoró luta para ser a capital brasileira da cultura











PARTE I – AS PRIMEIRAS MANIFESTAÇÕES





A professora Ida Marcelino (Ida Fernandes de Oliveira) havia feito um estudo sobre o teatro de Mossoró nas primeiras décadas do século passado. O estudo terminou sendo publicado numa revista antiga chamada “Oeste”, em que ela clamava para que os artistas voltassem aos tempos áureos de outrora nas artes cênicas. Quando seu estudo foi publicado, em 1959, o teatro em Mossoró vivia no ostracismo e daí o apelo de Ida para fazer renascer a arte. Apesar dos bons momentos vividos pelo teatro na primeira metade do século 20, o amadorismo era evidente. Não havia especialistas na área e tudo era realizado com a vontade e o talento nato pouco lapidado. Do que se tem notícia da série de documentos analisados pelo JORNAL DE FATO, o teatro mossoroense passou a ganhar uma forma organizada nos anos 20 com o professor Eliseu Viana (que se casou com Celina Guimarães, a pioneira do voto feminino). O teatro não era sua principal paixão, mas uma delas. “Eliseu gostava de realizar peças teatrais no final de ano com seus alunos em Mossoró”, explicou o historiador Geraldo Maia. A contribuição para as artes através de Eliseu Viana incentivou a formação de grupos e de admiradores do teatro. Seria o início do aprendizado na arte da interpretação. O que a professora Ida citou em reviver os tempos áureos do teatro não queria dizer que Mossoró vivia uma efervescência artística. Pelo contrário. Era algo muito embrionário. “Nossos palcos eram sempre improvisados. Se, apesar deles, eu estou a contar coisas novas, é porque modéstia à parte, o TEAM foi mais longe”, comentou Lauro Monte Filho, no livro “Caleidoscópio”, em que detalha toda a vida do Teatro Escola de Amadores de Mossoró (TEAM). A primeira parte da série sobre Mossoró Tradição Cultural vai mostrar como surgiram as primeiras manifestações teatrais na cidade e alguns destaques culturais das primeiras décadas do século passado. Percebe-se que a cidade buscava o aperfeiçoamento em várias segmentos da arte. O teatro, a literatura e a música ganhavam corpo. Só assim, será possível entender como Mossoró chegou ao auge da cultura nos dias de hoje, com grandes espetáculos teatrais de rua, as inúmeras companhias de teatro e artistas dos mais variados estilos. “O que a gente notava no final dos anos 50 para os anos 60 era o empenho de Laurinho para fazer o teatro ser profissional e respeitado. E conseguiu”, relembra Maria Lúcia Escóssia, que participou do Team, ao lado de Lauro Monte Filho. O idealizador do Team tinha a vontade de fazer teatro, arregimentou um grupo de atores e, em 1959, trabalhava o seu primeiro texto: “Os Deuses Riem”, de A.J. Cronin. Tinha tudo. Faltava apenas a vivência no teatro. “Quem dirigiria o espetáculo? Nada ou pouco sabíamos da realidade do teatro, da estrutura de uma peça, da montagem de um espetáculo. Éramos amadores em extensão e profundidade”, relembra Lauro Monte, em seu livro. O Team precisou recorrer a uma assistente social de Assu, Maria do Nascimento Bezerra, que havia dirigido uma peça em sua cidade e se propunha a apoiar a iniciativa do Team. Após alguns ensaios, a peça foi apresentada e se tornou um “sucesso total”.“Para nós, na época, achamos que tudo saiu cem por cento. Mas hoje, podemos ver grandes absurdos que cometemos”, comentou Lauro Monte Filho no livro. Em entrevista ao JORNAL DE FATO, Maria Escóssia, que chegou depois do espetáculo de estréia, explicou que o Team conseguiu manter um grupo de atores fiéis e outros que se revezavam. “Muita gente passou pelo grupo. É difícil de citar todo mundo, porque muitos entravam e outra saíam”, disse. E foi muita gente mesmo, entre elas Zuleide Vieira de Sá, Kiko Santos, Cícero França, Roberto Mendes, Turbay Rodrigues, Tarcísio Gurgel, Gilson Marcelino, Irismar Ribeiro, Wilson Maux, e outros que você verá no capítulo seguinte.Ao tempo em que o teatro engatinhava, embora já se caracterizasse como um movimento organizado em Mossoró, outros artistas também começavam a mostrar talento. E um deles era o cantador Elizeu Ventania, que começava a fazer sucesso dentro da cantoria popular. Um pouco antes do renascimento do teatro em Mossoró, em 1942, Elizeu (com 18 anos) iniciava-se na carreira artística. E seu destaque foi tanto que chegou a gravar um disco pela gravadora Continental, “Canções do Amor”, que foi distribuído para todo Brasil e marcou o sucesso “A Voz de Um Prisioneiro”, nas rádios paulistas.O seu disco chegou a vender mais de 40 mil cópias. Apesar de morrer na pobreza em 1999, aos 75 anos, Elizeu foi reconhecido dando nome à atual Estação das Artes (onde se realiza os principais eventos culturais da cidade). Elizeu chegou a gravar mais três discos.A música regional, que ganhava força com Elizeu Ventania, recebia o apoio de três artistas de grande talento no início dos anos 50: João Batista (o João Mossoró), Hermelinda Batista (a Ana Paula) e Carlos André Batista (o Oséas Lopes). Eram três irmãos, que decidiram formar o Trio Mossoró. Carlos André, que já tocava sanfona, decide morar no Rio de Janeiro e chama seus irmãos para continuar com o trio lá. O reconhecimento vem rapidinho. Em 1954 recebeu o troféu Elderbe, o mais importante prêmio musical da época. Em 1962 gravou o primeiro disco, o LP “Rua do namoro”, o primeiro de uma série de dez ao longo da carreira, entre eles, “Trinta dias de forró”, “Transamazônica, o paraíso da esperança” e “Forró do mexe mexe”. O trio se separou em 1972, e cada um seguiu com projetos individuais. A BMG lançou uma coletânea em 2001 na qual o Trio Mossoró aparece no volume 19.Quando o Trio Mossoró acabou, Aldenora Santiago já encantava a alta sociedade mossoroense. O presidente do Instituto Cultural do Oeste Potiguar (ICOP), Wilson Bezerra de Moura, lembra que a artista natalense “cantava divinamente bem e na maioria das vezes se fazia acompanhar do violonista Antônio Martins de Miranda (o Totõenzinho) e do saxofonista João Batista (o Maestro Batista)”. Mas, teve um fim trágico. Os seus últimos dias terminaram nas calçadas do antigo Auto do Louvor (área onde se concentrava prostíbulos), sempre embriagada. “Aldenora, como tantas outras criaturas, não soube aproveitar o tempo”, conta o professor Wilson. A própria Aldenora dizia: “Sei que vou morrer nessa vida que levo. Sou consciente. Estou me assassinando aos poucos”. E morreu de cirrose em dezembro de 1984.O Maestro Batista relembra dos momentos em que junto com Aldenora surgiu uma outra cantora, Marlene Matos. Ela integrou a banda de Totõenzinho, o Totõenzinho e seu Conjunto, que atuou de 61 a 68. “Ela cantava com o maestro Dermival Pinheiro e depois seguiu com nossa banda nos anos 60”, diz. Quando a banda de Totõenzinho terminou, ficou difícil do Maestro Batista seguir com o grupo e foi estudar agronomia. Vale lembrar que Batista foi um dos alunos de Arthur Paraguai, maestro que cuidava da regência da banda de música da prefeitura nos anos 50. Paralelamente, outras bandas e cantores começaram a surgir, dando início a uma nova safra de músicos.






ALGUNS PERSONAGENS





Eliseu Viana – O teatro mossoroense passou a ganhar uma forma organizada nos anos 20 com a sua participação. Eliseu era casado com Celina Guimarães, a pioneira do voto feminino. “Ele gostava de realizar peças teatrais no final de ano com seus alunos em Mossoró”, explicou o historiador Geraldo Maia.






Ida Marcelino – Professora, que conseguiu entrar na universidade aos 40 anos, chegou a ser uma das mais importantes profissionais da área acadêmica. Ela fez um estudo sobre o teatro de Mossoró nas primeiras décadas do século passado, que publicado numa revista antiga chamada “Oeste”, em 1959.






Lauro Monte Filho – O idealizador do Teatro Escola de Amadores de Mossoró tinha a vontade de fazer teatro, arregimentou um grupo de atores e, em 1959, trabalhava o seu primeiro texto: “Os Deuses Riem”, de A.J. Cronin






Aldenora Santiago – Cantora natalense que encantava a alta sociedade mossoroense nos anos 60 e 70. Os seus últimos dias terminaram nas calçadas do antigo Auto do Louvor. Morreu em 1984.






Trio Mossoró – Grupo formado por João Batista (o João Mossoró), Hermelinda Batista (a Ana Paula) e Carlos André Batista (o Oséas Lopes). Eram três irmãos, que decidiram formar o grupo no início dos anos 50.






Jaime Hipólito – Jornalista nascido em Caicó e nos anos 40 veio para Mossoró onde trabalhou no O Mossoroense e no extinto Diário de Mossoró.





Vingt-un Rosado – Escritor e criador da Coleção Mossoroense, a maior editora do Brasil em títulos publicados (4.361 obras), fundada 1949. Vingt-un morreu no final do ano passado.






Paz entre os escritores





Lauro Monte Filho foi incumbido pelo escritor Vingt-un Rosado a “levantar a bandeira branca” entre ele e o jornalista Jaime Hipólito Dantas. Havia um mal entendido entre Vingt-un e Jaime que foi resolvido a partir da intercessão de Lauro Monte numa carta escrita em 1o de abril de 1991. “Venho em missão de paz e não é mentira de 1 de abril”, assim ele iniciava. A paz selada através da carta também serviu para que Jaime atendesse a um pedido de Vingt-un: a publicação na Coleção Mossoroense do elogio feito por Jaime ao seu patrono na Academia Mossoroense de Letras (AMOL). O patrono dele era Antônio Pinto de Medeiros.Jaime, Vingt-un e Antônio Pinto de Medeiros foram três importantes construtores da cultura de Mossoró, a partir da literatura. Jaime Hipólito era jornalista nascido em Caicó e nos anos 40 veio para Mossoró onde trabalhou no O Mossoroense e no extinto Diário de Mossoró. Ele nasceu em 1928, um ano depois em que o jornalismo local entrou para a história com a importante entrevista de Lauro da Escóssia feita com o bandido Jararaca, do bando de Lampião (que havia invadido a cidade em junho daquele ano). “Lauro era o espadachim animoso com a vivacidade do felino, sempre pronto para enfrentar, nas horas das trevas, um vulto encapuzado”, afirmou o jornalista e poeta Cid Augusto, que segue seus passos em O Mossoroense.Cid relembra que o memorialista Raimundo Nonato da Silva comparava Lauro da Escóssia com o avô, Jeremias da Rocha Nogueira, por conta da coragem e do entusiasmo pelo jornalismo. Jeremias é tido como o Gutenberg da cidade ou como diz o historiador Raimundo Soares de Brito, “fundador da imprensa na terra de Santa Luzia”. Jeremias criou o jornal O Mossoroense em 1872 e morreu em 1881.Pois, Jaime Hipólito seguiu os ensinamentos de Lauro da Escóssia e chegou a ser membro da Academia Mossoroense de Letras, na cadeira número 10 de Antônio Pinto de Medeiros. Antônio Pinto nasceu em Manaus, mas ainda criança veio para Mossoró onde foi professor e jornalista. Ele renunciou à imortalidade na Academia Norte-riograndense de Letras (ANL), o único caso que se tem notícia na história local. Os elogios feitos a Antônio Pinto por Hipólito seriam registrados na Coleção Mossoroense, a maior editora do Brasil em títulos publicados (4.361 obras), fundada por Vingt-un Rosado em 1949. O seu fundador morreu no final do ano passado. Enquanto esteve vivo, celebrava seu aniversário com a chamada Noite da Cultura, em que reunia os lançamentos do ano da Coleção Mossoroense (uma média de 250 títulos anuais), sempre no final de setembro.





Os primeiros imortais










O então prefeito Dix-huit Rosado sugeriu ao escritor Vingt-un Rosado a criação de uma Academia Mossoroense de Letras. Vingt-un acatou a idéia, e a academia nasceu em 1988. O historiador Raimundo Soares de Brito foi o vice-presidente da entidade (hoje, ele é o presidente.). A primeira reunião contou com as presenças Vingt-un Rosado, Paulo Gastão, Lauro Monte Filho, Benedito Mendes, Raimundo Soares, América Rosado, entre outros nomes. As reuniões aconteciam na sede da antiga Esam (hoje Ufersa) e depois passou para o Museu Municipal Lauro da Escóssia. Por conta de uma sede própria, as atividades da Amol foram se reduzindo ao ponto de praticamente o atual grupo não se reunir há pelo menos cinco anos. “A Amol encontra-se sem exercer plenamente as atividades por falta de uma sede própria”, disse o professor Wilson Bezerra, do Icop. “Antes, as reuniões ocorriam na Esam. Depois, a Escola nos pediu a sala e ficamos desarticulados. Toda a documentação está guardada no Museu, onde aguardamos há mais de cinco anos que volte ser organizado, o qual existe um projeto dentro do novo museu, contemplando com uma sala para sediar a Amol, ICOP e SBEC”.






Reinados e carnaval










Chico Márcio, Valdecir Freire e Nestor Saboya aparecem como os reis Momo que mais ocuparam o trono na história do carnaval mossoroense. Eles viveram o melhor momento da folia. Os historiadores explicaram que no início do século passado, os carnavais não aconteciam em clubes, nem reuniam aglomerado de pessoas em áreas descampadas. O professor Raimundo Soares disse que nos anos 20, os foliões fantasiados brincavam nas casas dos familiares. Numa entrevista ao JORNAL DE FATO em 22 de fevereiro de 2004, Raimundo relembra: “Antigamente, quando não tinha clube, as festas eram realizadas nas casas das pessoas. As famílias se reuniam com alegria e era uma coisa bonita de se ver”. As grandes festas aconteceram alguns anos depois com a construção de clubes. Os carnavais antigos eram regados a licor e café. Com a construção da ACDP e do Ipiranga, além da festa, havia uma rivalidade de quem oferecia o melhor carnaval. “As fantasias eram caprichadas e luxuosas”, conta Raimundo Soares de Brito. Os Camisas Pretas, Aviadores, Bloco Branco e Camisa Encarnada se destacavam entre os grupos carnavalescos. Nos anos 70, os blocos da elite disputam as alegorias e figurinos mais bonitos. Entre eles estavam o Hi-fi, Sky, Ciganas Zingaras, Carmafeu de Oxossi (composto por moradores do Alto da Conceição) e os Falcões da Doze Anos.“Não havia carnaval melhor que o de Mossoró há uns anos. O dia era na praia, a tarde era nos chamados assaltos às residências em blocos de fantasia e à noite nos clubes tradicionais”, rememora Boanerges Perdigão, da Fundação de Cultura. Havia atividades de blocos nos clubes e fora deles. Nas movimentações populares, como as mariposas, os ursos, surgiram o Baraúnas no bairro Doze Anos – que depois passou a ser clube de futebol – e a animação de Cristina Paulista, nos Pimpões.Quem mais ocupou o trono de rei Momo foi Valdecir Freire (17 vezes), a última no ano passado ao lado da rainha Marjoreem Paiva. Nestor Saboya vem em seguida com 13 (professor Raimundo acredita ser 16) e Chico Márcio, com oito. Mesmo com um período bem menor, Chico Márcio foi escolhido o eterno rei Momo em 93 no carnaval “Tem Sim, Senhor”, quando recebeu uma comenda da prefeitura. “Foi a maior emoção que já passei, o reconhecimento pelo meu amor e dedicação ao carnaval mossoroense”, lembrou ele, em 1996. Surgiram outros reis, como Amilcar Fernandes, Joãozinho Escóssia, Rodrigo Delfino e belas rainhas como Aurora Escóssia, Cléia Maria, Alda Jataí, Zilma Sá, entre outras.